Numa recente entrevista à estação televisiva Now, interrogada sobre se “para o Bloco não faz sentido qualquer aumento em termos de defesa?”, Mariana Mortágua respondeu que “faz sentido que a União Europeia encontre formas de coordenar os seus investimentos e reprogramar esses investimentos para não haver nenhuma dependência de um país Estados Unidos que tem os seus objetivos políticos e está a mostrá-los a todo o mundo para quem quiser ver. Mas isso tem de ser feito com sensatez, não é uma corrida armamentista sem qualquer lógica”.
Estas declarações, transcritas diretamente do “direito de resposta” que o Bloco exigiu ao AbrilAbril por conta da polémica instalada nas redes sociais, acaba inadvertidamente por confirmar que, embora não tenha respondido explicitamente “sim” ao aumento dos gastos militares, Mariana Mortágua indicou estar disposta a aceitar o aumento desses gastos (que ela chama de “investimentos”), desde que isso seja “feito com sensatez” e com uma determinada “lógica”, que já explicaremos qual é.
Com efeito, face a uma correta análise do papel da NATO como “uma organização que servia [continua a servir…] os interesses dos Estados Unidos da América”, Mortágua apelou à “sensatez” dos imperialistas europeus para que estes, deixando de lado as suas diferenças, saibam “coordenar” e “reprogramar” os seus “investimentos” militares.
No meio duma histeria belicista, a líder do Bloco não considerou sensato denunciar os planos de remilitarização do continente que os trabalhadores serão chamados a pagar ou a natureza imperialista da União Europeia que, em plena crise capitalista e intensificação das rivalidades entre as grandes potências, procura reforçar o seu poderio militar para poder usá-lo, seja no exterior fazendo a guerra a outros povos para manter ou conquistar novas esferas de influência, seja no seu interior fazendo a guerra contra os seus próprios povos, usando o aparato militar e securitário para sufocar a luta dos trabalhadores.
Terá sido um lapso? Um mal-entendido? Uma daquelas declaração menos felizes, como o deslize da Marisa Matias quando esta afirmou que não punha em causa o envio de armas para a Ucrânia desde que (pausa para rir) não fosse “como um negócio para alguns países da União Europeia” o que enfim, a suceder, já a “chocaria profundamente”…?
Na verdade, e apesar da Europa ser o berço do imperialismo na sua acepção moderna, capitalista, parece claro que para Mariana Mortágua (e para o conjunto dos dirigentes bloquistas), os imperialistas são sempre os outros, sejam americanos ou russos, governados por oligarquias de extrema-direita, contra quem a Europa do “Estado social” e da democracia” se tem de defender.
Para Mortágua importa, pois, que a União Europeia se torne por isso independente dos Estados Unidos e que se “reprograme” o “investimento” para gáudio e lucro da sua indústria militar, através duma “coordenação” que, outra coisa não pode ser na Europa capitalista, senão a subjugação dos sócios menores às maiores potências do continente, ou o que comumente se chama de…imperialismo. Tudo isto, claro, municiado com lógicas e sensatas juras de amor à Escola pública, ao SNS e à taxação dos ricos…
Cedendo as pressões da opinião pública burguesa, Mariana Mortágua não se propõe lutar contra o militarismo, mas contra os seus excessos de “insensatez” para “não se fazer a guerra em nome da democracia, deixando a democracia morrer”. Como se o mundo não se fraturasse e dividisse em classes antagónicas, mas entre democracias e autocracias! Mas com isto não se luta contra o militarismo: apenas se dá uma cobertura de “esquerda” aos propósitos das classes dominantes europeias que usam o espantalho do “perigo russo” como justificação para a austeridade que perseguem, para as restrições aos nossos direitos democráticos que procuram e para a projeção imperialista que ambicionam.
Mas sejamos claros: mais de três anos de guerra não beliscaram o poder de Putin. Pelo contrário, a guerra proxy da Ucrânia e o belicismo ocidental apenas têm cimentado o seu poder interno, reunindo a maioria da população em seu redor, aumentando, modernizando e endurecendo o exército russo, o qual, ainda assim, apesar das perdas em materiais e vidas, não foi capaz nestes anos de guerra de conquistar Kiev; embora queiram agora convencer-nos que, se não nos “coordenarmos” e reprogramarmos” com mais “investimento” militar, esse exército russo tomará Berlim, Paris e Lisboa!
Não haja aqui qualquer sombra de dúvida! Nós, comunistas revolucionários, queremos a queda de Putin e do seu regime, mas não confiamos essa tarefa às guerras inter-imperialistas, mas à classe trabalhadora russa. Ao contrário da líder do Bloco de Esquerda, não confiamos a defesa da classe operária europeia nas mãos dos capitalistas “coordenados”, seja na NATO ou na União Europeia, mas na organização e internacionalismo da classe trabalhadora, mobilizada na luta contra o capitalismo e o imperialismo, incluindo o imperialismo dos Estados europeus.
O pecado original, enfim, é que Mariana Mortágua não se propõe lutar contra o capitalismo, mas a “reprogramá-lo”. Se o quisesse fazer, teria de começar por definir os nossos capitalistas, os capitalistas europeus, como o nosso principal inimigo – tal como o comunista Karl Liebchnecht, em plena primeira guerra mundial, o fez ao declarar aos trabalhadores alemães que “o inimigo principal está em casa”.
Porém, e pelo contrário, o que ela faz é apelar à “sensatez”, boa vontade e colaboração dos capitalistas europeus para que, na sua luta contra os capitalistas dos Estados Unidos e da Rússia pela partilha do mundo, não sacrifiquem o “Estado social”, como se a guerra não fosse inerente à naruteza do capitalismo e a austeridade não fosse consequência da sua crise , mas apenas fruto de algumas escolhas insensatas e “sem qualquer lógica”…